Álcool e sono: o que acontece na segunda metade da noite
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O álcool adormece-te mais depressa e faz-te dormir pior. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo. Se acordas às 3 da manhã depois de duas taças de vinho ao jantar, não é coincidência — é o que acontece quando o álcool sai do sistema. Vou explicar-te o que se passa em cada metade da noite e o que podes ajustar.
Primeira metade: o efeito sedativo
O álcool atua nos recetores GABA-A, os mesmos onde atuam os sedativos. Reduz o tempo que demoras a adormecer e aumenta o sono de ondas lentas nas primeiras duas a três horas. É por isso que a sensação inicial é boa e é por isso que tanta gente usa um copo como indutor.
O problema é que essa é só a primeira metade.
Segunda metade: o ressalto
O corpo metaboliza cerca de uma bebida por hora. Quando o álcool desaparece, o sistema nervoso responde com hiperatividade — o oposto da sedação inicial. A temperatura corporal sobe, o ritmo cardíaco acelera e o sono parte-se em despertares curtos que muitas vezes nem registas.
Resultado: passas sete horas na cama e acordas com a sensação de quatro.
O REM é o primeiro a ser cortado
Uma meta-análise publicada na Sleep Medicine Reviews mediu uma redução de 11,3 minutos de sono REM numa noite com álcool, face à mesma pessoa sem álcool. E o efeito é dependente da dose: por cada grama de álcool por quilo de peso corporal, a redução chega aos 40,4 minutos. Para alguém de 70 kg, 1 g/kg corresponde a cerca de cinco a seis bebidas.
O REM é a fase associada à consolidação da memória e ao processamento emocional. Cortá-lo explica a parte do cansaço que não se resolve com mais horas na cama — e explica também porque é que o dia seguinte a uma noite de copos tem mais irritabilidade do que o número de horas justificaria.
Ressonar e apneia: o álcool piora os dois
O álcool relaxa a musculatura da via aérea superior. Quem ressona, ressona mais alto e durante mais tempo. Quem tem apneia do sono — diagnosticada ou não — tem episódios mais longos e mais frequentes nas horas seguintes à última bebida.
Se isto te é familiar, lê primeiro apneia do sono: sinais, riscos e o que fazer. É o único ponto desta lista que justifica consulta médica, não ajustes caseiros.
Quanto tempo antes de deitar
Regra prática: três horas entre a última bebida e a cama. Para cada bebida acima de duas, acrescenta uma hora. Não é uma regra clínica, é aritmética de metabolismo — quanto mais tarde bebes, maior a sobreposição entre a fase de eliminação do álcool e a janela de sono.
Duas notas que costumam surpreender:
- O digestivo depois do jantar faz mais estrago do que o copo de vinho durante a refeição, mesmo que a quantidade total seja igual.
- Beber menos mas mais tarde não compensa. A hora importa tanto como a dose.
O que ajustar esta semana
- Última bebida três horas antes de deitar. É o ajuste com maior retorno e o mais fácil de testar em sete dias.
- Um copo de água por cada bebida. Reduz os despertares por sede e por idas à casa de banho na segunda metade da noite.
- Quarto entre 16 e 19 °C. O álcool sobe a temperatura corporal precisamente na fase em que o corpo precisa de arrefecer. Tens os números em temperatura ideal do quarto para dormir.
- Se ressonas depois de beber, dorme de lado. A posição lateral reduz o colapso da via aérea. Precisas de uma almofada com altura suficiente para manter o pescoço alinhado com a coluna — tens a gama em almofadas para dormir de lado. A Kaiteki (快適, "conforto") foi desenhada para esse perfil.
- Não troques o álcool por um suplemento sem perceber o que estás a tratar. Comparei os dois mais usados em magnésio ou melatonina.
Se quiseres uma sequência fixa para as duas horas antes de deitar, o guia da rotina noturna tem o passo a passo. E se a base ainda não está resolvida, começa pelo guia de higiene do sono.
Quando deixa de ser um hábito
Se precisas de álcool para adormecer, o problema já não é a bebida — é a insónia por trás dela. A tolerância ao efeito sedativo instala-se em poucas semanas e a insónia agrava-se quando se retira o álcool, o que fecha o ciclo. Nessa altura, resolver sozinho é raro.
Antes de mudares seja o que for
Este artigo é informativo e não substitui aconselhamento médico. Se tens insónia crónica, apneia do sono diagnosticada, tomas medicação para dormir ou usas álcool de forma regular para adormecer, fala com o teu médico antes de fazer alterações.
Se a tua noite se parte a meio e desconfias que o colchão ou a almofada estão a contribuir, fala comigo. Dez minutos ao telefone chegam para perceber. Tens o contacto em Conselheira do Sono.
— Ana Cristina, Conselheira do Sono da Dreamura